Quando a gente fala em fadas, muitas vezes as pessoas pensam logo em Irlanda, Escócia, Inglaterra, País de Gales, e realmente vários nomes importantes ligados ao povo feérico aparecem nessas tradições. Mas, dentro da visão da Tradição Caminhos das Sombras, essas rainhas não são seres que “moram” nesses países como se fossem espíritos locais limitados a um território humano. O que acontece é outra coisa: existem pontos de interseção entre o plano das fadas e o plano humano, e em alguns lugares do mundo esse contato aconteceu de forma mais forte, mais nítida, mais preservada em mito, folclore e literatura.
Então, por exemplo, certos nomes chegaram até nós por meio das mitologias irlandesas, do folclore britânico, ou até da literatura. Mas isso não quer dizer que essas soberanias nasceram ali. Quer dizer que naquele lugar houve contato, e através desse contato os seres humanos receberam nomes, histórias, símbolos e formas de reconhecer essas presenças.
E por isso, dentro da nossa tradição, a ideia de rainha das fadas não se limita à Europa.
O Mundo das Fadas
O plano feérico é vasto. Existem vários reinos, várias regiões, várias correntes. E quando esse plano toca o mundo humano em diferentes partes da Terra, ele pode se expressar através de formas locais diferentes. No Brasil, por exemplo, nós temos os encantados. Nós temos correntes espirituais próprias da floresta, das águas, da terra brasileira. E dentro da visão da nossa alta sacerdotisa, Naelyan Wyvern, seres como a Uiara, ou Yara, e até correntes ligadas ao Boitatá, podem ser percebidos como expressões de soberania dentro dessas realidades féricas brasileiras.
Mas ao mesmo tempo, as fadas de muitos planos reconhecem os nomes dessas rainhas que eu vou falar aqui hoje. Por quê? Porque esses nomes funcionam como nomes de poder, nomes de soberania, nomes pelos quais certos povos aprenderam a se relacionar com elas.
Então, quando eu falo Aisling, Áine, Titania, Aoife, Leannán Sídhe, Mab, eu não estou dizendo que elas pertencem apenas a uma nação humana. Eu estou dizendo que esses foram alguns dos nomes pelos quais essas soberanias se deixaram conhecer.
E isso também se liga a uma ideia muito importante na bruxaria, que é a ideia do chamado sangue de fada.
Sangue de Fada
Existem várias formas de entender isso. Algumas pessoas vão entender isso de forma energética, outras de forma ancestral, outras até de forma mais literal. Mas a ideia, no fundo, é que certos povos, ao longo do tempo, se misturam espiritualmente, magicamente, culturalmente, e até ancestralmente com certas correntes de poder. Isso fica na terra, fica nos ossos, fica no sangue, fica na memória de um povo.
E quando esse povo migra, quando esse povo se espalha, quando essa memória entra em outros territórios, ela também abre caminhos. Ela cria o que eu chamaria de uma massa crítica espiritual. Ou seja, não é só a cultura que viaja. A magia também viaja. A ancestralidade viaja. Os pactos, os mortos, os símbolos, a memória profunda, tudo isso viaja junto.
E é por isso que certos portais espirituais começam a se abrir em lugares onde, num primeiro olhar, você talvez não esperasse. É por isso que pessoas no Brasil podem trabalhar com essas rainhas. É por isso que esses contatos não ficam presos a um mapa moderno.
Agora, dentro da Tradição Caminhos das Sombras, existe uma outra chave muito importante para entender essas rainhas: a chave do tempo.
As Cortes das Fadas
Muita gente conhece aquele modelo da Donzela, Mãe e Anciã. Mas aqui a questão não é só uma questão feminina no sentido simbólico mais comum. Aqui isso tem muito a ver com o tempo. A rainha que será, a rainha que é, e a rainha que foi. Futuro, presente e passado.
Então esse mistério se aproxima um pouco de estruturas como as Nornas, ou as Parcas, ou até de outras divindades que aparecem de forma tríplice. Não porque seja a mesma coisa, mas porque existe essa ideia de múltiplas faces ligadas ao fluxo do tempo. O que está vindo. O que está acontecendo agora. E aquilo que permanece como memória, raiz e antiguidade.
E isso aparece nas duas grandes cortes: a Seelie Court e a Unseelie Court.
Seelie
A Corte Seelie, que é a corte do verão, rege pela terra, pelo fogo e pela luz. Ela está ligada à primavera e ao verão, à parte luminosa da roda do ano, ao florescimento, à fertilidade, à vitalidade, aos ciclos de vida deste planeta. São fadas ligadas ao que cresce, ao que brota, ao que dá beleza, movimento, calor, expansão.
Mas tem uma coisa muito importante sobre elas: elas regem o glamour e a ilusão.
E aqui é importante entender que ilusão não é o mesmo que mentira. Dentro da visão que a gente trabalha, as fadas são seres mágicos. E justamente por serem seres mágicos, elas não mentem da forma humana, banal, vulgar da mentira. A mentira enfraqueceria a própria natureza delas. Mas o glamour, o encantamento, o velamento, a alteração da aparência, o fascínio, isso sim é poder feérico. Então elas podem encantar a percepção, podem se mostrar de uma forma ou de outra, podem envolver a realidade em beleza e ilusão, sem que isso seja exatamente uma mentira.
E por isso, muitas vezes, na imaginação tradicional, elas aparecem como fadas mais luminosas, mais douradas, muitas vezes com cabelos claros, loiros, ou com uma beleza mais radiante.
Dentro dessa corte, nós temos Aisling, Áine e Titania.
Aisling é a rainha que será. Ela tem essa energia mais voltada ao futuro, ao que ainda vai se manifestar. E isso é muito interessante porque o próprio nome Aisling, nas tradições irlandesas, está ligado à ideia de visão, sonho, revelação. Então dentro da tradição ela assume muito bem esse aspecto mais jovem, mais leve, mais cintilante, mais alegre, mais voltado àquilo que ainda está chegando.
Áine é a rainha que é. Ela é mais presente, mais acessível, mais abundante, mais próxima. Ela tem esse aspecto mais maternal, mais acolhedor, mais ligado ao agora. E isso também combina com as associações tradicionais de Áine com fertilidade, brilho, prosperidade e poder feérico.
E Titania é a rainha que foi. Ela tem esse peso mais ancestral, mais régio, mais ligado à memória e ao passado. Ela traz essa força daquilo que já floresceu, daquilo que permanece na lembrança encantada, daquilo que continua vivo na antiguidade.
Unseelie
Já a Corte Unseelie, a corte do inverno, tem uma natureza muito diferente.
Ela rege pelo ar, pela água, pela escuridão e pela verdade.
E eu acho isso muito belo, porque o inverno é duro. O inverno arranca excessos. O frio confronta. O frio é avassalador. E no frio só fica a verdade. Só fica aquilo que resiste. Então as fadas do inverno têm essa natureza mais confrontadora, mais séria, mais selvagem, mais guerreira. Elas estranham a verdade das coisas, a verdade de você, a verdade da realidade. Elas não estão aqui para te embalar. Elas estão aqui para testar, para proteger, para preservar, para defender.
E isso é muito importante: dentro da tradição, elas são vistas como um povo que protege a vida que a corte do verão produz e zela. Porque existem lugares, condições e mistérios onde as fadas do verão não conseguem permanecer, mas as fadas do inverno conseguem. Então elas guardam essa vida. Elas a defendem. Elas a sustentam nos lugares mais duros.
Por isso também, no imaginário delas, aparece muito essa beleza mais fria, mais escura, mais severa. Elas costumam ser percebidas com cabelos escuros, negros, ou até brancos, com uma aparência mais cortante, mais profunda, mais silvestre.
Dentro dessa corte, nós temos Aoife, Leannán Sídhe e Mab.
Aoife é essa donzela do inverno, mas uma donzela que não é pueril. Ela tem um aspecto jovial, sim, mas ela é séria. Ela é caçadora. Ela é guerreira. Ela é feiticeira. Ela traz essa energia afiada, firme, indomável.
Leannán Sídhe é uma figura fascinante porque nas tradições ela aparece como esse tipo de fada sedutora, que busca o amor dos mortais, especialmente dos artistas, e os inspira. Só que essa inspiração não vem sem preço. Ela pode levar à loucura, ao esgotamento, à obsessão. Então ela é uma figura muito intensa, muito escura, muito magnética. E dentro dessa corte ela traz essa força de sedução perigosa, de fascínio, de arte, de profundidade emocional e espiritual.
E Mab tem essa força mais régia, mais antiga, mais severa. Algumas pessoas fazem associações entre Mab e outras grandes soberanias, até mesmo com a Morrígan em certas leituras, mas isso já entra em interpretações e aproximações, não num consenso histórico simples. O importante aqui é entender que ela carrega essa presença de realeza feérica, de seriedade, de comando e de mistério.
Então, quando a gente fala das Rainhas Féricas, a gente está falando dessas soberanias do tempo, dessas correntes do plano feérico que se manifestam em múltiplos lugares, múltiplas culturas e múltiplos nomes. E é justamente isso que torna esse tema tão rico.