O Equinócio, Ostara e a Páscoa: Desmentindo Mitos

Aileen Daw

Aileen Daw

Sacerdotisa da Tradição Caminhos das Sombras

Data

05/04/2026

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Ao longo do tempo, as pessoas foram popularizando os Sabbats Wiccanianos e muitas outras vertentes de bruxaria adotaram essas celebrações. Isso acabou espalhando a ideia de que Ostara seria a origem da Páscoa. Mas não, não é bem assim.

A Origem do Sabbat Ostara

Precisamos lembrar que a Wicca é uma reconstrução de práticas pagãs — o que chamamos de neopaganismo — pois não é exatamente a mesma coisa que os povos antigos faziam. A Roda do Ano com os oito Sabbats foi uma reconstrução feita por Gerald Gardner, Ross Nichols e Aidan Kelly, baseada em culturas diferentes:

  • Festivais Celtas (Maiores): Samhain, Imbolc, Beltane e Lughnasadh (Lammas).

  • Festivais Nórdicos/Saxões (Menores): Equinócios e Solstícios (Ostara, Litha, Mabon e Yule).

Origem histórica de Eostre e a conexão com a Deusa Ostara

A gente tem uma única fonte histórica que cita o nome Eostre. Beda, o Venerável, era um monge e historiador no século VIII. escreveu um livro chamado De Temporum Ratione (“A Contagem do Tempo“). Nesse livro, ele menciona os meses e as divindades celebradas pelos anglo-saxões. Março era chamado de Hrethmonath (em homenagem à deusa Hretha — Deusa da qual não temos outra referência), enquanto abril era Eosturmanath (mês de Eostre). No entanto, não há outras evidências arqueológicas ou etimológicas que comprovem celebrações dedicadas a ela antes dessa menção.

A conexão de Eostre com uma “deusa germânica” universal só ganhou força mil anos depois, em 1835, com Jacob Grimm. Ele era um folclorista nacionalista que tentava construir uma identidade germânica ancestral e, baseado na única menção de Beda, associou Ostara (que seria, teoricamente, uma divindade local) a Eostre. Grimm identificou raízes linguísticas semelhantes para o termo “Páscoa” em vários países europeus (OsterEaster) e propôs a existência de uma deusa germânica da primavera e do sol nascente chamada Ostara. Essa associação se popularizou através do seu livro, Mitologia Teutônica.

Eostre como uma Deusa da primavera e da fertilidade é uma construção baseada em fragmentos e suposições a partir do livro de Grimm. Alguns pesquisadores acreditam que “Ostara” ou “Eostre” pode ter sido, na verdade, um sobrenome ou prefixo aplicado a uma deusa germânica principal, como Freya, especificamente durante essa época do ano.

O Equinócio de Primavera e a Páscoa

Embora o nome “Ostara” seja uma construção moderna popularizada pela Wicca, é provável que povos pré-cristãos realizassem celebrações nesta época do ano. Tais festivais estariam ligados ao calendário animista agrário, focando na observação da natureza, no surgimento de flores e no retorno da fertilidade, mas sem necessariamente estarem dedicados a uma Deusa específica com este nome.

A incorporação de práticas pagãs na Páscoa cristã ocorreu em grande parte como uma estratégia da Igreja para facilitar a conversão das populações europeias, integrando elementos folclóricos e tradições do calendário agrário à liturgia cristã. No inglês (Easter) e no alemão (Ostern), a celebração possui nomes que podem estar ligados à deusa Eostre registrada por Beda. Na maior parte da Europa, porém, o nome da celebração (como Páscoa em português ou Páskar em islandês) deriva da palavra hebraica páscha”, ligada a uma celebração judaica incorporada ao calendário litúrgico cristão.

Algumas tradições de Páscoa incluem o acendimento de fogueiras, uma prática que Jacob Grimm associou às celebrações de Ostara como uma forma de honrar o sol nascente e o retorno do calor. A própria ideia de uma “missa ao amanhecer” pode ter ecos de rituais antigos de saudação à aurora e à deusa do amanhecer.

Por que isso é Importante?

A gente sabe que muito da prática pagã se perdeu porque era tradição oral; não foi documentada porque os povos pagãos foram dominados. Então, ficou muito pouco do que era realmente praticado. A gente não tem como provar tudo, mas não significa que a gente não possa continuar celebrando e trazendo esses elementos.

A natureza humana é de trazer novos elementos, de juntar coisas, de fazer esse ‘telefone sem fio‘ e ir trazendo novos folclores e novos mitos para potências que estão aí há muito tempo. Então, celebrar o Equinócio de Primavera como Ostara não é um problema, mas é importante que a gente saiba a origem das informações. É importante que a gente tenha o contexto histórico correto para que a gente passe a informação correta e consiga tomar uma decisão consciente dentro da nossa prática.


Um vídeo em português com muitos detalhes sobre isso: 

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